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Atenção

Por Dani Raphael

Estou aqui ouvindo o som da chuva lá fora, enquanto a mesma, como dama da noite, escorrega pelos vidros da janela, se contorcendo em linhas retas, tentando tirar de mim, mais do que minha atenção

E minha atenção é tudo que tenho, para mim e para o mundo que seca, gritando o tempo todo – estou com fome, estou com fome, e do pouco dela que me resta, já que insisto ainda em plantar com as próprias mãos, divido com os famintos de mim, já que ainda não conseguem se alimentar de si mesmo.

E me planto, todos os dias, juro que me planto e me colho, imaginando como serei degustada no café da manhã, do amanhã.

Será que amanhã,  depois da rua-rio ser manifesta,  me degustarei por completa? É a resposta-sim-oração que espero, enquanto me deleito entre as tramas do meu lençol desbotado, e penso por alguns instantes o quanto a minha apatia em não quará-lo , também me protege de ter que gastar do pouco da atenção que me alimenta, preocupada em encontrar outro lençol

E eu gosto do meu costume de me acostumar com o que tenho, e está tudo bem, porque não preciso gastar de mim, me acostumando com outras coisas, outros gostos, outros cheiros, o novo me cansa e já estou cansada de me cansar.

A chuva, essa sim tem felicidade, ela nasce, corre, morre e nasce e nasce, sabendo exatamente qual o seu destino, existindo somente para aquilo que ela foi determinada  ser.

As vezes eu até queria ser chuva, não pela possibilidade de mudança, mas para saber qual é o gosto de ser exatamente aquilo que se é. E o que sou? eis que essa é a questão que me apavora, porque não tenho respostas, porque não tenho atenção suficiente para ter tempo de mergulhar em mim.


 Imagem pexels

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